terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A escola organizada em ciclos


O post de hoje, mais uma vez, é sobre Educação. Desta vez, vou falar sobre a  organização do ensino em ciclos. Pra quem não está familiarizado como o assunto, os ciclos dizem respeito à forma como são organizados os anos que um aluno passa na escola. Se antes este tempo era organizado em séries (1ª, 2ª, 3ª...), agora ele passa a ser organizado de dois em dois anos, três em três anos, quatro em quatro anos (ciclos).

A base para essa nova organização dos anos escolares é a idéia de que a aprendizagem não se dá de forma linear e nem ao mesmo tempo para todos os indivíduos e que por isso deve-se respeitar o tempo de cada um. Mas afinal, quais as implicações desta mudança? A primeira e, no meu ponto de vista, a mais significativa é que os alunos não reprovam antes de fechar o ciclo. Por exemplo: se o primeiro ciclo for organizado em três anos, o aluno só poderá reprovar ao final do terceiro ano.
  
Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB): “A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar” (art. 23).

Sendo assim, as escolas não são obrigadas a adotar a prática da organização em ciclos devendo, como diz a lei, optar pelo que for mais favorável ao ensino-aprendizagem. No entanto, o Conselho Nacional de Educação (CNE) recomenda que as crianças não sejam reprovadas nos três primeiros anos do Ensino Fundamental porque cada uma tem um ritmo de aprendizagem.

Os que defendem esta forma de organização em ciclos afirmam que as altas taxas de reprovação no início da vida escolar são responsáveis por altos índices de evasão da escola. Além disso, as reprovações em alta escala causariam prejuízo financeiro ao estado, sobrecarregando o orçamento destinado à educação.

A Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) realizada no início do ano em todas as capitais do país com crianças que completaram o 3º ano do Ensino Fundamental apontou que em relação à leitura, 43,9% não aprenderam o que era esperado para esse nível de ensino. Já no que refere à escrita esse número foi de 46,6%.

Cabe aqui discutir o aspecto da evasão, mencionado anteriormente.  Em um primeiro momento o fato de a criança não reprovar nos dois primeiros anos da escola e se manter nela em função disso, pode parecer positivo. Mas é preciso pensar o que vai acontecer quando esta criança chegar ao final do terceiro ano e, como mostram os dados, não atingir o desempenho esperado. Será que ela não vai evadir mesmo assim? Será que ao invés de ampliar o acesso à educação não se está aumentando as desigualdades visto que ela não vai conseguir acompanhar os demais colegas?

O fato é que as crianças que tiverem dificuldades desde o primeiro ano e mesmo assim forem aprovadas não terão as ferramentas básicas para o ano seguinte. Quero deixar claro aqui que a questão central não é ser contra ou a favor à organização dos anos escolares em ciclos e sim se a escola vai dispor de ferramentas para auxiliar esse aluno que vai estar “atrás” dos demais colegas.  

Por Tamara Souza

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Depressão é frescura?


Outro dia estava conversando com uma pessoa e ela me disse que acha que depressão é frescura. Pensando sobre o tema para escrever para o blog e depois de muito refletir sobre isso, achei que seria interessante falar sobre  este assunto, que muitas vezes é tratado como tabu na nossa sociedade. Confesso que como estudante de Psicologia  fico triste em saber que ainda tem pessoas que pensam assim.

Apesar de as estatísticas variarem dependendo do estudo, estima-se que de 20% a 30% da população mundial sofra de depressão. Não cabe aqui discutir os critérios diagnósticos ou questionar se este número corresponde ou não à realidade. Independente  das estatísticas, certamente isso NÃO É FRESCURA, DEPRESSÃO É DOENÇA! Entre os sintomas estão: perda do interesse por atividades diárias, apatia, desesperança, alterações do apetite e do sono, dificuldade de concentração, retraimento social, ideação suicida, entre tantos outros.

Apesar do avanço no tratamento, tanto no que se refere aos medicamentos quanto à psicoterapia, muitas pessoas com depressão chegam ao extremo de tirar a própria vida. O suicídio está entre as primeiras 10 causas de morte no mundo. Os dados são preocupantes: estima-se que um milhão de pessoas cometa suicídio por ano no mundo. Entre as tentativas frustradas, o número varia de 10 a 20 milhões por ano.

Diante desses dados, acredito que seja no mínimo insensato dizer que depressão é frescura. O fato de muitas pessoas pensarem assim acaba por agravar em alguns casos o quadro. Muitas vezes os próprios familiares e amigos tem dificuldade de entender o que a pessoa está passando, muito pela falta de conhecimento sobre o tema. Muitas vezes na tentativa de ajudar, dizem coisas como “você tem que ser forte, tem que lutar” e isso acaba por piorar a situação, pois a pessoa simplesmente não tem mais forças pra lutar e acaba se sentindo culpada.

Por outro lado, a própria pessoa tem dificuldade de perceber a intenção de ajuda por parte das outras pessoas. Um dos motivos pra que isso aconteça é que a pessoa com depressão passa a ter uma visão distorcida dos acontecimentos, passando a ver somente o lado negativo dos mesmos (essa talvez seja a característica mais marcante da doença).

Como eu disse lá no início a depressão ainda é tratada muitas vezes como um tema tabu na nossa sociedade. Por isso a importância de se falar abertamente sobre o tema, não só no meio acadêmico, mas entre a população em geral a fim de que se possa desmistificar a idéia de que “depressão é frescura”. Espero ter contribuído um pouco neste sentido.

Por Tamara Souza

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cotas, por quê?


Assunto muito debatido há alguns anos é o sistema de cotas raciais como forma de inclusão social. Grande parte das vezes, entretanto, o debate gira em torno de argumentos pouco fundamentados além pouco se entender sobre as razões que levaram e mantém a exclusão e que fazem necessário algum tipo de intervenção, concordemos ou não com as cotas.

O sistema de cotas é um “reparo” aos anos de escravidão a que os negros foram submetidos no Brasil, sendo a eles, neste período, negado alguns dos direitos mais fundamentais da condição humana.

Como se sabe, os negros eram capturados (geralmente separados de suas famílias) em África e transportados (em situações precárias) até o Brasil para que (os que sobrevivessem à viagem) aqui exercessem o trabalho escravo. A chegada dos primeiros negros para o trabalho escravo se deu ainda no século XVI. A abolição só se deu quase 340 anos depois e neste período exercia trabalhos forçados, era torturado, não tinha direito a liberdade, a salário ou a educação.

A abolição, da forma como se deu, não foi inclusiva. Esta visava muito mais atender a interesses financeiros do que uma consciência da desumanidade do regime escravista. Desta forma a lei Áurea libertou, mas não incluiu, transformando negros ex-escravos e negros marginalizados. Continuava o negro sem acesso a educação, terras ou emprego. O samba Mangueira, de 1988, retrata bem o quadro: “... Pergunte ao criador quem pintou essa aquarela; Livre do açoite na senzala; Prezo na miséria da favela...”.

O quadro pintado entre os séculos XVI e XIX (sim, a história do Brasil tem mais tempo na escravidão do que após a mesma) pode ser visto ainda hoje. Pesquisas revelam que 64% dos pobres são negros, sendo o percentual de negros na população Brasileira de 45,4. Além disso, pesquisa de 2003 mostra que 43% da população negra encontra-se abaixo da linha da pobreza.

Através do acesso a educação o sistema de cotas visa a redução desta desigualdade que, no Brasil, se confunde social e racialmente. Esta desigualdade, como tentei demonstrar, tem origens históricas e, concordemos ou não com o sistema de cotas, deve, de alguma forma, ser combatida.

Recomendo leitura: http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=19978 .